A falta
Posso aqui ficar
mesmo que não
me deixe.
Posso ir embora.
Ficar noutro lugar.
Posso não querer
amar
mesmo que não puder.
Posso me arrepender
e voltar atrás
se tempo eu tiver.
Se nada
sobrar
Deixo você ficar
mesmo indo
embora sem te deixar.
Víctor Zazuela
Almas
A aranha caminha na
parede
fosse areia a aranha
não poderia caminhar
Mesmo assim é ternura
a parede eterna
Pára no caminho. Que
pensa
a aranha no infinito?
Não pensa. Já não pára
e continua a aranha
na parede que é caminho
fosse areia não poderia
caminhar
Sumiu a aranha: Que
pena!
Talvez jaza
na areia da parede.
Víctor Zazuela
Ausência
O meu som
ensurdece por dentro.
Sou aquele que se ouve
e se não ouvem
o barulho ainda assim
E X I S T E.
Minha voz tem de ser mais
forte
até mesmo que a morte
que insiste em viver em
mim.
Sou a própria sorte
no meu avesso.
Ver o mar acima
da cabeça – conformar.
Mesmo louco
na voz rouca embebida
sou todo
por toda parte
ouvido
a tudo.
Víctor Zazuela
Campo de batalha
Estou prestes a explodir.
Sou um cogumelo
que vai de átomo a átono
da palavra à fala
da fala ao movimento.
Mas tudo se cala.
Sou mais o poema
que reinvento.
Corro daqui e dali
e ouço a explosão.
A calma
A alma
A redenção:
o poema em seu movimento.
Me deixa... é só
meu momento.
Víctor Zazuela
Cântico
Não queiras entender
O que passa no outro.
Tentes a compreensão
apenas de um único universo -
que já és grande demais -
o teu próprio.
Saibas que a luz
disparada agora, nesse momento,
no seu quarto-mundo
não ilumina-o por inteiro.
O todo é sempre parte
do que vês. E o canto,
esquecido ao que parece,
reflete tua sombra.
Ele é parte do todo.
Ela é parte de ti.
Víctor Zazuela
Carregando Cruz
Diante do espelho
o temor de pentear o cabelo
se confunde com pressa
e poesia.
Uma prece misteriosa
e um momento único...
na minha frente.
É preciso convencer-me
que sou eu.
Adormecer Narciso
e despertar a verdadeira vaidade.
Convencionar a arte no ato.
Sonhar pra além daquele
que me olha.
Mas quem me garante
se houver desistência
e o deixar pra amanhã começar
agora?
Se acabar, em que espelho
se prenderá a outra face?
Quem saberá de mim
se passar despercebido
essa coisa tão importante...
Acalmar a poesia e deixar
a pressa:
sê bem vinda
minha nova companhia.
Víctor Zazuela
...
com o tempo
coisas lindas
não são mais lindas
perdemos guerras
e o que só tranqüiliza é o que ameaça –
todos destinos
com seu baús de espantos
como o tempo
a poesia envelhece
os sapatos encolhem
e homens adormecem
à margem de toda batalha
Agora só quero correr pro meu ninho
e encantar os caminhos
mas tudo com o tempo... leva tempo
Víctor Zazuela
Confissão
Vem um verso
que eu não conto a ninguém.
É o mesmo poema. Não tem diferença.
Mas a poesia é coisa
de fim de mundo. E nem um verbo
se conjuga no agora, no antes
ou no depois.
É quase tudo sem tempo.
Simples conversa – fim do mundo.
Caminhar andando – fim do tempo.
Quase amar – fim de tudo.
Tem um verso –
sem verbo – que eu sei
mas não conto a ninguém.
Víctor Zazuela
Conselho do tempo
Quando criança achava o mundo eterno.
Não tinha lembranças do ontem.
Uma mágoa, uma dor,
um espanto.
Nascia e morria o hoje todo o dia.
De repente, adolesceu meu mundo.
Criaram-se chaves nas portas,
horários nos relógios,
a lembrar que eu existia.
A me lembrar todo o dia,
o hoje e o ontem.
Em algum tempo cresci
e pensei no mundo eterno
quase morri de medo –
o medo de esquecer.
O esquecer de tudo.
Víctor Zazuela
...
Na medida de minhas impossibilidades
deixo o tempo falar por mim
Pelas ruas escuras e bem movimentadas
atitudes sem acerto
erradas, acanhadas
deixo o silêncio falar por mim.
Na medida das taças transbordadas
borradas
sem medida sem maldade sem saudade
deixo o medo dizer por mim
Pelas facas apontadas
por toda arma desarmada
sem riscos, nem rabiscos, sem talhos e
cortes
deixo um álibi pra mim
Mas sem tempo,
em silêncio ou não,
deixo na medida a possibilidade
que o tempo se esqueça de mim.
Víctor Zazuela
Domingo no quarto
Num quarto escuro
a noite em claro:
a poesia nasce.
Espera a manhã
os poetas acordados
fantasiados às ruas.
Estão todos lá:
um risco dizendo francisco
Francisco se dizendo
num risco.
Víctor Zazuela
Egos
Os que amam escrevem suas
ultimas palavras antes
do recomeço –
um ati-epitáfio.
Os que lêem os que amam
não são mais que
meros atores. A rara arte
do entendimento.
Os que escrevem os que amam
não têm meio nem caminho.
Têm um certo sentido
no começo e no fim:
toda partida
é nascimento e morte.
Assim dizem os que se calam.
Víctor Zazuela
Em cantos
Há uma vida
em cada canto
sabendo-se mais que todo
o mundo.
Esconde-se em cada canto
um mundo diferente
que tudo sabe.
Há o momento do
encontro em cada canto
que nem todo o mundo sabe.
Nem todo canto se mostra
nem toda vida,
nem o mundo,
tanto, sabendo
da vida, tanta,
que todo canto tem.
Há uma vida agora
que vai chegando
indo também
pra tanto canto
que tem.
Víctor Zazuela
Encontro
Ainda
não nascia feliz.
Mas hoje
quando o céu me viu
olhei pra cima
e não foi em vão.
Escrevi meu nascimento
num diário íntimo,
sem palavras.
Calado, tudo entendi:
Seria poeta
a vida inteira.
Víctor Zazuela
Entrega
Vem
vamos destruir juntos o coração
e tudo que nele não reside em nos.
Acabar com a vontade – de ser o que somos.
Vamos.
Estamos prestes a explodir.
Mas antes digamos que ainda
é cedo. E que o tempo no mundo
desconhece o eu e você.
Vem
vamos destruir o pensamento
que pouco a pouco impede a ação
e traz pra nossos ombros a
dor de cada canto.
O fim se aproxima. Ninguém nos sabe.
Vem, vamos.
Agora é só o grito que importa.
Destrói paredes e limites
dentro de nós. Ninguém nos ouve.
Vem, vamos
pra onde ninguém sabe.
Víctor Zazuela
Espanto
Parece que a terra treme
e nada se pode fazer.
O céu escurece
(mesmo estiado o ânimo)
O dia parece não ter fim
Um desfecho
quer anunciar-se
a terra abrir-se –
e nada se pode fazer
Um último desejo:
de não sentir a
queda
Que ela traga
mas que seja
outro
fundo
sonho.
Víctor Zazuela
Eterno
Vem hoje
porque hoje existo.
Tem uma palavra que me
faz entender tudo:
seja meu mundo.
Sou, mas não demora muito,
esse horizonte azul.
Por isso encantado.
Vem hoje
porque hoje existo.
Víctor Zazuela
Florando
Flores que nascem e, em mim,
inconseqüentes permanecem.
Livres, ora carceradas.
Amantes, amadas, armadas.
Ninguém as quer?
Todos, sequer um que
rompendo seus limites,
orando pra demônios
pecam, insanos
impune (mentes),
ao redor do meu jardim.
16.06.2006
Víctor Zazuela
Holocausto
A lua em holocausto
ainda ilumina.
Abro devagar a janela
querendo que um dia
entre e deixe tudo às claras.
Somente um quase sol
da manhã que não é minha.
Quando eu decidir, amanhece.
Prefiro o frio da noite
à frieza das manhãs.
Os cantos escuros que dizem tudo
ao todo fácil que nada diz.
Quando chegar o dia
lerei a mensagem
de um novo mundo.
Víctor Zazuela
Imagens
Navio naufragando
existindo em pedaços
extinguindo-se plenamente.
O mar absoluto rindo
Tudo indo
aos poucos pro fundo
das
águas
Nessa escuridão
é só solidão
O céu negrita uma estrela
que se apaga
Também não se apresenta
a lua
que se reserva
a sua loucura
Resta o azul do dia
que talvez alguém apare
Deus se ausenta
pro juízo final
quando já é tarde
Víctor Zazuela
Infância
Lembro
Dos goles de pólen,
Da companhia alheia,
Do gozo ingênuo.
Como bom era, naquele tempo,
Tomar banho de roupa.
Víctor Zazuela
Intenção
Deito sobre o
sujeito.
Agora posso dobrar
os joelhos
e justificar os dejetos –
objetos da prece.
São quatro paredes
mornas
que fazem suar mais
que um corpo.
Apartamento do mundo
sem quintais.
Desacatando o céu aberto,
os olhos interiorizados
de todos,
os graves tons da palavra.
Redeito sobre o
sujeito.
Agora um olhar
de quem não sabe. E isso basta.
Víctor Zazuela
Intimidade
Nasce a lua nua
passam horas convencionais
dotadas, quem sabe,
da última ruga que não se sabe.
Nasce a nua lua
vêm – mágicos – aqueles que sabem
pra onde vão.
Todos vêm e vão.
Nasce nua
a lua
o trágico
o caminho
dos que ocupam
o espaço
o vácuo
em vão.
Nasceu lua,
nua ou não,
o desejo
de fazer
o agora
virar
(a)manhã.
Víctor Zazuela
Já dentro dele
Quando chega
tudo ao fim
o poema morre.
Queria eu ir junto
(mas o poema não sou eu?)
Ele passa e deixa
grandes ruínas.
Os escombros guardam
minhas sombras.
Neste momento é todo o meu mundo.
E antes que me levante e ande
ele volta.
Em sua fantasia
se posta a meu lado –
ressuscitado –
levando a minha morte
em sua vida.
Víctor Zazuela
Lado a lado
Quando estiver comigo
pareça perto
como se em mim
morasse
sua outra metade.
Me toque de leve
mesmo que breve.
Esteja comigo
sem ou com sentido.
Seja amante e
coisa amada.
Esperança cada a cada.
Consciência armada.
Quando estiver consigo
em minha presença
ausente o amigo,
apareça em mim,
desapareça comigo!
E não entenda saudade como meia metade.
Víctor Zazuela
Lugar
Ainda a paisagem
pousa. Aqui está
aquele que sonha –
arrepia-se a
esquecida sensação.
Não é hora de anoitecer
de vez. Está aqui aquele
que se prende ao vento.
Longe, por que não
fica comigo?
Víctor Zazuela
Máscaras
É como se todo amor fosse
pena
e a vida uma indefesa ilusão.
Como se tudo bastasse.
Como se a dor um
destino
e todo mal passasse a limpo.
Como se tudo ficasse.
É como se cada menino fosse
homem
e cada homem menino.
Como se tudo mudasse.
Como se cada palavra
falasse
e não falando calasse.
Como se fosse verdade.
Como se a vida fosse
possível
e ser preciso ter fora de cada ser.
É como se tudo pudesse,
num faz-de-conta,
fazer de conta
e viver.
Víctor Zazuela
Maturidade
Não mais adianta.
Agora já se foi a claridade nua.
Resta o quarto escuro - a
ante-sala de todo cárcere.
Víctor Zazuela
...
meu alimento
quer mais que um corpo
é um simples dizer que caminhar
é preciso
esse alimento – é quase certo
além do fim dos mundos
quer mais que si mesmo,
andar sozinho,
a esmo,
num próprio caminho.
meu alimento
tem fome de mundo,
de caminho,
não andar
sozinho.
o que quer então esse alimento
estranho destino
com e sem caminho
estar e não sozinho...
meu alimento
quer esse alimento
que alimento
quando eu mesmo
não tenho destino.
Víctor Zazuela
Mundo de Coisas
É bom que esse agora –
agora aqui
agora ali –
esse tudo pra já
se aquiete
ou saia daqui.
Que venha de
bandeja
esse banquete.
Eu tenho é fome de
coisas invisíveis.
Tapetes vermelhos,
me deixem pisar
nos seus calos.
Víctor Zazuela
Edson Ferreira da Silva, nasceu a trinta e oito anos, em Marília, interior de São Paulo. É sociólogo de formação, funcionário público por profissão e poeta por paixão.Tem convivido com a poesia desde sempre. Seu maior motivo para estar vivo. De sua cidade que inspira poesia – a “Cidade Menina” – extraiu a essência do que para ele representa sua arte e sua própria vida: “sou tantos que por vezes não me reconheço.
Não comporto nenhum deles – sou eles”. Víctor Zazuela foi gestado dessa confusão de seres apartados e unidos pela emoção da poesia. Hoje, Edson e Víctor são um só. Ou vários. Ou nenhum deles.



















































